Blog de tenorio.moura


19/12/2008


REFORMA POLÍTICA OU RETROCESSO?

 Por incrível que pareça, o Congresso Nacional tem feito algo que há muito não se via neste país: legislado. Seja devido a enxurrada de medidas provisórias, seja por conflitos de interesses ou mesmo por falta capacidade para tanto. O fato é que a bola da vez mexe diretamente com a vida deles (políticos) e justamente por isso é que se vê, finalmente, os atuais membros do parlamento defenderem aguerridamente seus pontos de vista; embora as opiniões sobre os temas em baila sejam quase unânimes. Isto faz-me lembrar uma assertiva bastante conhecida do polêmico escritor Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra!

Por exemplo, o Senado aprovou no último dia 18 uma Proposta de Emenda à Constituição (como essa coitada vive emendada, parece mais uma colcha de retalhas!) que aumenta em 7.343 o número de vereadores no Brasil. Com essa mudança, o país terá 59.791 vereadores. Ressalte-se que a última mudança no número de vagas nas câmaras municipais de todo o país, diminuindo o número de vagas, ocorreu por decisão do  Supremo Tribunal de Justiça, e não por vontade política. Claro!

O mais inusitado nesta PEC é a premência em colocá-la em vigor. Corrija-me se estiver errado, amigo leitor, mas nunca vi nenhuma mudança nas regras de um jogo durante sua execução. Logo não faz o menor sentido premiar os suplentes que perderam as últimas eleições com uma virada de mesa que lhes garante uma "boquinha" nos legislativos municipais.

Concordo que "se" houver a necessidade exaustivamente comprovada de aumento do número de vereadores no país, que ocorra; mas para 2012, assim ninguém será pego de "calça curta", todos que se envolverem no processo eleitoral estarão cônscios de suas chances mediante um número de vagas coligido. No entanto, duvido muito que essa necessidade se justifique. Querer convencer o eleitor de que aumentar o número de vereadores corresponde a aumentar a representatividade, e conseqüentemente a legitimidade do legislativo, é o mesmo que tentar vender geladeira a esquimó.

É bem verdade que a proposta reduz o limite de gastos com as Câmaras Municipais. A PEC estabelece que poderão ser gastos o mínimo de 2% e o máximo de 4,5% do orçamento municipal. Atualmente, os gastos variam de 4,5% a 8%. E daí? Desde quando mensalinho é computado em prestação de contas?!

Outra pérola que tem sido empurrada goela abaixo é o fim da reeleição. Bem sei que tal idéia é comungada pela maioria esmagadora dos formadores de opinião, O que não me incomoda nem um pouco, afinal o embate é a alma da democracia.

Falar em golpismo e casuísmo é pouco para descrever tal iniciativa. Primeiro cogitou-se a possibilidade de se aprovar um terceiro mandato, lançaram a semente, apalparam, mas perceberam que a resistência da mídia seria muito grande e a "mesada extra" muito alta. Então passaram a cuspir no próprio prato em que comeram, tanto petistas quanto tucanos, e disseminou-se no berço da estrela vermelha a idéia de se estender os mandatos dos atuais mandatários para que coincidam e, assim, ocorram eleições gerais, sob a alegação de contenção de gastos.

Os defensores do fim da reeleição alegam que os executivos postulantes a mais um mandato utilizam-se da máquina pública para se reelegerem. Será que a memória do povo brasileiro é tão curta a ponto de se esquecer que Quércia, Maluf e tantos outros caciques fizeram seus ilustres desconhecidos sucessores às custas das benesses de seus cargos?

Além do mais, dê-se a César o que é de César. Se o fim da reeleição é tão positivo, é preciso que nossos ilustres  legisladores dêem o exemplo e acabem com a reeleição para os próprios cargos. Afinal, quem é que não conhece algum "profissional" das tribunas que se vangloria de ocupar o mesmo cargo há vinte, trinta anos; mas quando questionado sobre seus feitos ao longo de todo este período desconversa?

O que tais legisladores, que legislam em causa própria, alegam em defesa de seus mandatos é que seus cargos não lhes proporcionam as mesmas oportunidades extras que mandatários da coisa pública. Ora, vamos e convenhamos, quem acredita que um vereador, candidato a reeleição, não tem mais chances que um novato? É fato inconteste as renovações quase que completas ocorridas nas câmaras de várias cidades interioranas, mas é preciso analisar os fatos pontuais que levaram os eleitores a expurgar tais edis, pois renovação maciça é exceção, e não a regra.

Na prática, a reeleição é um mandato de oito anos com ratificação no meio. Se o presidente está indo bem, fica. Do contrário, volta para casa. Democrático. Nos EUA, a maior  democracia do mundo, funciona assim.

É um absurdo mudar a regra do jogo a todo momento, o que tem sido a regra no Brasil e não a exceção. Em 1993, na revisão da Constituição votada em 1988, o mandato de cinco anos foi reduzido para quatro, sem direito à reeleição. Naquele momento, Lula aparecia bem nas pesquisas, e a maioria do mundo político preferiu fazer um "seguro" contra sua eventual vitória em 1994. Ironicamente, FHC venceu no ano seguinte e se envolveu no lamentável episódio de compra de votos para aprovar a reeleição em causa própria. Perdeu prestígio e ficou sem força para aprovar as verdadeiras reformas que o país precisa.

Agora querem voltar aos cinco anos de mandato e retirar o direito à reeleição! Será que alguém realmente acredita que a vida da nação, no dia seguinte, não voltará a ser exatamente igual ao que era antes? Ou todos resolveram se transformar em ex-marido apaixonado pela própria ex-mulher? Tão retrógado quanto piegas.

Autor da idéia da extensão do mandato para seis anos e agora afirma que foi mal interpretado, que não queria que valesse para Lula; Sarney levou o fisiologismo ao extremo para conseguir um ano a mais de mandato na Constituinte de 88. Moveu mundos e fundos, principalmente estes, e saiu "queimado" do Palácio do Planalto.

Ressalte-se que se quatro anos é muito tempo quando as coisas vão mal, imagine um mandato de cinco, seis anos! Já a regra atual (reeleição) tem a vantagem de exigir dois mandatos mais curtos, o que facilita a demissão do mau empregado, via voto.

Ah, só pra relembrar, se houvesse reeleição na época de Juscelino Kubitschek teríamos tido o privilégio de ter tido à frente de nossa nação o maior estadista de nossa história por mais tempo e evitado o equívoco Jânio Quadros, juntamente com sua mais  letal conseqüência:  o golpe de 1964. Só isso já basta para se justificar a permanência da reeleição. Desde que não se esteja legislando em causa própria, é claro, pois diante de toda esta presepada o que fica mais nítida é a sanha de alguns parlamentares em trocar a tribuna por uma caneta: é um olho no gato e outro no peixe.

Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

 

Escrito por tenorio.moura às 22h41
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14/12/2008


É preciso reinventar a esquerda brasileira

 

Lembro-me como se fosse hoje de quando tive, pela primeira vez, a noção da importância da política para a vida de todos nós, mesmo que de forma não muito clara. Tinha nove anos de idade e assistia atônito a comoção de milhares de populares na despedida ao meu avô, o ex-prefeito Joaquim Tenório Sobrinho.

Naturalmente eu sabia que ele já havia sido prefeito e outras coisas mais na política, porém não entendia exatamente a dimensão delas. É verdade que para mim aquele monte de gente rondando meu avô não era surpresa, aliás, era uma das coisas que mais me aborrecia em minhas visitas à casa dele, não tê-lo só para mim nunca! No entanto ver tanta gente tão diferente concorrendo por um instante ao lado de seu féretro era algo que eu não conseguia compreender. Para mim, antes de qualquer coisa, ele era o meu "vô Buco", aquele senhor de andar fagueiro, gestos largos e fala arrastada que ia  a minha casa todas as terças e quintas à tarde conversar com minha mãe, tirar um cochilo, tomar o lanche da tarde e brincar comigo.

Anos mais tarde, por meio de meu saudoso irmão, Job Filho, compreendi quem fora o homem público "Pernambuco", a partir daí passei a ter um olhar mais contemplativo sobre a política. Instigado por meu irmão fiz parte da chapa encabeçada por ele ao grêmio estudantil do antigo CEC, hoje Hermelina Barbosa Leal. Passei a estudar correntes filosóficas, a ler sobre grandes personalidades da história política universal, a assistir quase que inerte às reuniões político partidárias de meu tio, o Luizinho, e a partir daí comecei a questionar todo o modelo de política que conhecia até então.

Esses questionamentos levaram-me a trilhar caminhos diferentes dos traçados por minha família. Em minha adolescência bradava estoicamente que eu era socialista trotskista. Veio abaixo o muro de Berlim, emergiu a Perestróica e junto com ela todas as mazelas do autoritarismo estatal, coisas que jurávamos ser apenas intriga da oposição tornaram-se irrefutáveis e deixaram todos os jovens socialistas de cabelo em pé.

A partir daí passei por um longo período de ostracismo político, meus heróis estavam todos mortos, até que li uma assertiva de JK, em uma biografia escrita pelo jornalista Cláudio Bojunga, que dizia que: quando percebemos uma vontade sincera nas palavras de nosso adversário político, ele deixa de ser o inimigo a ser vencido e passa a ser apenas o idealista que quer alcançar o mesmo bem público que você, mas traçando um caminho diferente.

Naturalmente uma visão não maniqueísta da política era uma novidade para mim, porém aquelas palavras, mesmo que pareçam insípidas para alguns, marcaram profundamente minha trajetória de vida. Aderi ao socialismo reformista ao mesmo tempo em que flertava com pensadores de direita. Voltei a fazer parte do movimento estudantil, após a faculdade entrei para movimentos sociais e hoje milito no sindicalismo; porém sem o mesmo ardor pueril de outrora.

Não que eu tenha me desiludido, na verdade creio que hoje vejo a política em sua real dimensão, com suas limitações e contradições intrínsecas a própria essência humana e, naturalmente estendidas à política partidária. Quem se desiludiu, na verdade, foi a esquerda de respeitosos cabelos brancos. São os líderes estudantis de duas ou três gerações antes da minha. Seus sonhos foram, um a um, sendo frustrados e traídos.

Primeiro veio o golpe militar, depois o famigerado AI-5, chamado por muitos de "golpe dentro do golpe". A guerrilha sucumbiu às Forças Armadas, nossos jovens intelectuais que trocaram os livros por armas se viram abandonados pela própria população pela qual caíram na clandestinidade.

O PT surgiu brilhando como a luz no fim do túnel para toda uma geração que ainda sonhava com a instauração do sistema socialista no Brasil. Um partido que, mesmo pregando o socialismo, conseguia arrebanhar cidadãos que galgavam as benesses do sistema capitalista! No entanto, foi só alcançar a maioridade via Palácio do Planalto que, paradoxalmente,  a esquerda brasileira soterrou-se em um mar de entulhos ideológicos responsável pela sua derrota maior. Lula adotou fielmente a política econômica de seu antecessor, FHC. O PT se emporcalhou num lodaçal de denúncias de corrupção sem precedentes em toda a história de nosso país. Decretou-se às custas do sangue, suor e lágrimas de gerações a falência de um projeto legítimo de esquerda no Brasil.

Para os Dirceus, Silvinhos e Delúbios da vida parece não haver desilusão alguma, apenas um pragmatismo cínico: a ordenha da máquina pública justificada pela necessidade de apoio político, como se todo homem tivesse um valor monetário.

Diante do exposto, o que fica evidente é que independentemente da posição política apregoada, o único tipo de político da velha geração necessário é aquele capaz de orientar os mais jovens a reconhecer que um projeto de transformação do mundo não precisa ser necessariamente aquele do qual se fez parte; que, com efeito, um novo projeto não deve seguir os mesmos passos do antigo, posto já sabermos aonde resultaria, além de ser o mundo presente totalmente diferente daquele de outrora.

As novas gerações de políticos parecem enxergar o mundo de hoje só até a  fila do caixa eletrônico (para sacarem os honorários), ao passo que a geração de outrora queria tomar de assalto o céu. Muitos tratam de justificar a sua resignação com o fracasso dos mais velhos.

Cabe à esquerda de cabelos brancos, que tanto me inspirou e me fez enxergar a política não como um caminho, mas como o único caminho, a trazer a rapaziada à realidade, fazê-los compreender que é preciso reinventar o mundo. É preciso dizer a eles que, sem essa esquerda fracassada, não haveria democracia, não haveria direitos trabalhistas e que, se dependermos do medo deles de fracassar, muito em breve não restará direito algum. É preciso um toque divino que transforme nossa esquerda falida e desacreditada numa Fênix.

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 18h15
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09/12/2008


Reflexões acerca do mercado de ações

 

Para minha surpresa, a explicação sobre o porquê da crise financeira norte-americana levantou maior interesse entre meus amigos leitores que o assunto central de meu último artigo, que foi: temas de redação de vestibular. Sinceramente não esperava que um assunto tão denso, embora abordado de forma jocosa, pudesse chamar a atenção do grande público.

Por conta de ter aventurado-me a explicar um assunto da área econômica, surgiu entre meus leitores mais próximos outra questão que instigou-me a novamente embrenhar-me pelas trilhas de economista amador. Aliás, bem amador, diga-se de passagem. Justamente por isso, deixarei os termos técnicos de lado e todo o emaranhado de novas modalidades de investimento em bolsa e restringir-me-ei apenas às vendas de ações à vista.

Imagine que em uma vila remota no coração do continente africano apareceu do nada um mercador querendo comprar macacos. A princípio ele ofereceu dez dólares por símio. Houve uma grande procura, pois as possibilidades de se fazer dinheiro em local tão ermo eram mínimas. No entanto, o interesse por tais caçadas sofreu uma derrocada brusca ao praticamente serem extirpados todos os macacos da região.

O mercador, entretanto, ainda tinha muito dinheiro e muitas jaulas à disposição. Então ele dobrou a oferta e os camponeses passaram a andar cada vez mais longe em busca de tão cobiçados primatas.

O tempo passou e faltaram tanto jaulas para manter as novas presas em cativeiro quanto meios de transporte para levá-los até o país de origem do mercador. Assim o exímio comerciante deixou seu assistente para trás, no intuito de continuar incentivando as caçadas e foi buscar mais jaulas e meios de transporte para levar seus preciosos símios. Ao menos essa foi a desculpa dada aos nativos.

Mal o negociante deu as costas e seu assistente dirigiu-se aos caçadores ocasionais e afirmou que seu patrão pagaria quarenta dólares por cabeça. Algo compreensível, afinal o primeiro aumento de oferta também fora da ordem de cem por cento (de dez para vinte dólares, lembra-se?). Então ele ofereceu aos nativos cada primata por trinta dólares. Seria um ganho mínimo de 33,33% em um prazo curtíssimo, questão de uma ou duas semanas e sem ter de se dar ao trabalho de se embrenhar em matas para caçá-los!

Todo o estoque de macacos foi vendido da noite para o dia e ninguém nunca mais viu nem o mercador, nem seu assistente. Assim os "Hábeis investidores" (compradores de macacos) tiveram um lucro que variou de 50 a 200% em poucas semanas.

Por mais absurda que pareça tal analogia é exatamente assim que se comporta o mercado financeiro, sobretudo os mais voláteis e, justamente por isso, mais passíveis da ação dos especuladores. Eles "invadem" mercados emergentes; enchem os pequenos investidores de esperanças; dão a falsa sensação de crescimento econômico devido a ampla liquidez galgada e, como conseqüência, há uma supervalorização dos papéis. Porém assim que conseguem elevar os preços dessas mesmas ações ao patamar almejado, realizam seus lucros e pernas pra quem tem. Sobra apenas um monte de títulos sem ter para quem vender e, conseqüentemente, o preço cai. Ao menos até aparecer outro comprador de macacos

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

 

 

 

Escrito por tenorio.moura às 22h56
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07/12/2008


Carta a um jovem vestibulando

É sempre a mesma coisa, toda ano, em época de vestibular proliferam-se os vestibulandos em busca de "previsões" de professores de Língua Portuguesa querendo saber qual será o assunto da redação. Embora tivesse a vontade de dizer que minha bola de cristal está quebrada ou que meus informantes foram demitidos de todas as comissões de vestibular do país; paro, respiro fundo e complacentemente dou sempre as mesmas dicas, que agora repasso ao amigo leitor, mas só porque você tem a boa vontade de, semana após semana, acompanhar minhas elucubrações filosóficas!
Primeiro: quem escolhe o tema de uma redação é uma comissão, logo o assunto a ser abordado será a síntese de um momento, já que o ser humano é um animal social e, sobretudo, condicionável pelo meio e tempo em que se insere. Assim sendo, nada mais natural que o tema abordado, geralmente escolhido uns três meses antes do vestibular,  seja a "carne do vaca" dos noticiários dos meses de julho a setembro.
Segundo: se a faculdade onde você prestará vestibular estiver localizada em um Estado de identidade marcante, relativamente independente da influência da grande mídia, é bom que você se informe sobre os aspectos sócio-econômicos dele, bem como acompanhar as notícias dos últimos meses sobre ele.
Terceiro: evite clichês, jargões, vocabulário coloquial, experiências pessoais ou familiares, parênteses, tópicos, repetições desnecessárias, vícios de linguagem e qualquer outro mecanismo que torne seu texto demasiadamente informal ou até mesmo denso. Lembre-se, os corretores não querem descobrir em uma mera redação de vinte e poucas linhas um novo Machado de Assis, mas apenas checar a capacidade de compreensão de mundo, de síntese e de fluência verbal do vestibulando.
Quarto: deixe o título por último, a menos que você tenha memória fotográfica e sente-se para escrever somente quando já tem tudo o que quer expor pronto na cabeça.  É possível mudarmos de viés ao longo do que escrevemos e, se colocarmos o título primeiro, corremos o risco de deixá-lo parecendo um retalho com pouco ou quase nada haver com o que foi escrito.
Quinto: essa é tão esdrúxula que até parece mentira. Gostaria que fosse. Nunca decore uma redação para utilizá-la em sua prova! Eu mesmo já corrigi várias, por exemplo, o tema era "A luta do homem contra o mais voraz consumidor: o tempo", e o candidato escreveu sobre a violência contra os idosos, creio que é porque na época havia uma novela das oito que tratava desse assunto.
E sexto, mas não menos importante, se informe, leia, discuta com as pessoas as suas leituras. A própria Bíblia ensina que "Como o ferro com ferro se aguça, assim o homem afia o rosto do seu amigo." (Provérbios 27 : 17). Só tem o que escrever quem tem bagagem cultural, conheça o mundo ao seu redor, sobretudo os assuntos de interesse geral, são eles que fazem a diferença à sociedade como um todo; desenvolva o hábito de expor sua opinião de forma embasada e coerentemente estruturada, esse é um predicado indispensável a alguém que galga o Ensino Superior.
Finalmente, para não decepcionar aos vários pedidos feitos via e-mail, embora não seja um especialista no assunto, tentarei esclarecer, da forma mais didática possível, a crise econômica norte-americana; mas ressalto que só me atrevo a fazê-lo porque trata-se de um assunto de interesse geral que, mais cedo ou mais tarde, afetará a todos nós, logo é passível de ser pedido em vestibulares.
O Sr. Manoel, que era dono de um bar, e não de uma padaria, tinha muitos clientes, tantos que não conseguia capitalizar o suficiente para aumentar seu estoque. Com medo de perder clientes por não poder fornecer-lhes toda a cachaça que gostariam de consumir, resolveu pedir um empréstimo a um banco.
A economia do país ia às mil maravilhas, o índice de desemprego não passava dos 4%, assim sendo foi fácil conseguir o empréstimo, sequer pediram-lhe garantias. Aliás, apenas as cadernetas de fiado do Sr. Manoel bastaram. O gerente ficou impressionado com o movimento do bom comerciante e até ofereceu-lhe outros dois empréstimos, um para comprar um carro e outro para fazer o que ele bem entendesse.
O que o gerente do banco não sabia era que os clientes do Sr. Manoel eram todos funcionários de uma usina próxima ao bairro onde moravam. Atraída por generosas ofertas de incentivos fiscais, doações de terras e mão de obra mais barata em outro Estado, a usina foi-se embora e os clientes do Sr. Manoel ficaram desempregados e cada vez mais bêbados. Logo não conseguiram mais honrar com os compromissos firmados na famigerada cadernetinha. O resultado é que o Sr. Manoel não conseguiu pagar seus empréstimos, o banco, que foi vítima da inadimplência de vários donos de boteco ao mesmo tempo,  não teve mais dinheiro para continuar emprestando. Por conseguinte teve que cortar gastos colocando máquinas no lugar de homens e as multinacionais que tinham dívidas em dólar com esse banco viram seus ônus se multiplicarem devido a falta da moeda norte-americana no mercado. É uma lei da oferta e da procura, quando é período de seca, o preço do leite é maior. Quando há recessão, falta de dinheiro circulando, esse mesmo dinheiro vale mais, uma vez que está escasso.
Para aplicar tal explicação a sua redação de vestibular, mas só se esse for o tema pedido, é só substituir o Sr. Manoel pelo Dr. Johannpeter Gerdau, os demais donos de boteco por construtoras e os clientes cachaceiros por mutuários da casa própria.

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

Escrito por tenorio.moura às 15h15
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25/11/2008


CARTA DE REPÚDIO

Como não faz parte da índole docente se curvar à opressão dos poderosos, vimos, por meio desta, repudiar veementemente a atitude, no mínimo, inconseqüente do excelentíssimo senhor governador do Estado, André Puccinelli, ao tachar todos os educadores de “vadios”. Talvez seja justamente por mantermos essa postura de negação à subserviência que tenhamos despertado tamanho ódio travestido de desdém por parte do gestor supracitado.

Contudo, não será por causa de alguém que nutre alguma espécie de mágoa ou ranço contra os educadores, provavelmente oriundo de seus tempos de estudante, que nos furtaremos ao nosso papel de contestação, combustível que leva os governantes a não se acomodarem em sua habitual inércia letárgica, tampouco deixaremos de levar a termo nossa missão de ensinar. Assim sendo, aproveitamo-nos de nossa formação, enquanto educadores, para esclarecer ao digníssimo gestor estadual que segundo o Dicionário Aurélio:

Vadio é o “1.Indivíduo que não tem ocupação, ou que não faz nada; ocioso, desocupado, tunante, vagabundo.” Assim sendo, sinto muito em ter de contestá-lo publicamente, mas faz-se mister tornar nosso ilustre mandatário ciente de que os professores de seu Estado não se enquadram em tal assertiva. Aliás é recorrente o valor dos educadores não só no Brasil, mas em todo o mundo “civilizado”. Faz-se salutar que efetivamente todos os países que emergiram ao primeiro mundo nos últimos trinta anos investiram maciçamente em Educação, tratando-a como prioridade de fato e não com meros discursos demagógicos. Falando em nossa “mãe gentil”, nosso último imperador proclamava há mais de cem anos que, se não fosse imperador, gostaria de ser professor, pois “não há ofício mais digno que encaminhar as inteligências juvenis”. Que lamentável vermos hodiernamente governantes tão retrógados!

                  E reiterando a definição de vadio, uma das definições salutares é “vagabundo”. Termo coloquial de sentido depreciativo (naturalmente não acreditamos que nosso líder estadual maior tenha tido intenção tão vil), portanto vemo-nos na obrigação de, humildemente, corrigi-lo. Para tanto novamente recorremos ao dicionário mais conceituado no mercado editorial nacional:

 

“Vagabundo 1.Que leva uma vida errante; que vagueia; vagamundo, vadio, erradio, errante, nômade, andejo, mundeiro. 2.V. vadio (1 e 4)
3.Fig. Inconstante, volúvel, leviano: ânimo vagabundo.”

 

Diante do exposto, torna-se nossa obrigação, enquanto cidadãos de bem, conscientes de nossa missão de educadores, de alertar ao nosso governador que evite tantas viagens, o que poderia levar alguém a cometer o engano de atribuir-lhe a pecha de vagabundo!

Ah! Outro termo presente na definição de vadio e, conseqüentemente, de vagabundo, que nos chama a atenção é:

 

“leviano2 Adjetivo. 1.Que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente. 2.Sem seriedade; inconstante: mulher leviana. Substantivo masculino.”

 

Aos mais desavisados, gostaríamos de salientar que qualquer semelhança com o nosso governador é mera coincidência. O fato de ele ter comparado a função de médico traumatologista com a de um professor sem levar em consideração as particularidades de cada profissão não significam que ele menospreza nossa categoria, mas tão somente que ele a desconhece por completo. No entanto, como servidores públicos dedicados, cabe a nós esclarecer-lhe que uma emergência médica não tem a menor verossimilhança com a prática docente, uma vez que esta se pauta em um projeto pedagógico que, além de ater-se a um exercício contínuo, é uma prática coletiva. Temos que compreender a pressão a que nosso governante está sujeito, afinal de contas um aumento de 3,7% no orçamento para se fazer cumprir a lei nº 11.738 é um problema inquietante; mesmo que isso signifique a correção de uma injustiça histórica para com os docentes e a melhoria da Educação Pública em nosso país.

Falando sério, André Puccinelli foi doidivanas ao se levantar contra, não só a lei do piso salarial, mas contra todos os professores deste país. A dívida de honra que ele fez com todos os educadores deste país tornou-se muito maior que a salarial, agiu como um doidivanas, exibiu tresloucadamente uma arrogância, embora propalada por alguns, desconhecida pelas massas, sobretudo pelos professores, a quem aviltou. Suas presunções sobre as especificidades da prática pedagógica revelaram-nos seu despreparo para ser o governador que nosso Estado precisa. Um cidadão que está há tantos anos na vida pública, mas não galgou a sensibilidade necessária para ouvir os anseios do povo, e em especial dos professores que preparam este mesmo povo do qual faz parte, não apresenta condições emocionais e sequer racionais para ser um legítimo representante das classes trabalhadoras. A hipocrisia com que fingia, durante sua campanha eleitoral, levar a Educação a sério só não é, hoje, mais retumbante que sua superficialidade, pois querer resumir planejamento pedagógico a uma meia dúzia de cliques em sites de busca é o mesmo que querer definir governar com arbitrar ao próprio bel prazer.

Esperamos, sinceramente, que a senadora Marisa Serrano, como companheira política do atual governador e notoriamente uma cidadã ligada à causa da Educação; consiga trazê-lo de volta à razão ou, ao menos, esclareça-lhe os pormenores do que vem a ser, de fato, planejamento pedagógico. Caso a falta de bom senso peculiar ao nosso governante continue a falar mais alto, o mínimo que se pode esperar de uma parlamentar que tem a Educação como sua bandeira e alicerce de história de vida é que rompa com ele, sob pena de ser jogada pela opinião pública na mesma vala política que ele cavou.

 

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; vice-presidente do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 19h54
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02/09/2008


A LINGUAGEM À SERVIÇO DA EDUCAÇÃO CLASSISTA

                                                                                                                                        *Rogério Tenório de Moura

 

Não existem representações ideológicas senão materializadas na linguagem. Por isso a linguagem é o instrumento que permite que as representações ganhem materialidade, expressão e espaço.

Quando um enunciador comunica algo, tem em vista agir no mundo. Ao exercer seu fazer informativo, produz um sentido com a finalidade de influir sobre os outros.

Quando um enunciador reproduz em seu discurso elementos da formação discursiva dominante, de certa forma, contribui para reforçar as estruturas de dominação. Se utiliza-se de outras formações discursivas, ajuda a colocar em xeque as estruturas sociais. No entanto, pode-se estar em oposição às estruturas econômico-sociais de uma maneira reacionária, ou seja sonhando fazer voltar a um mundo que não mais existe, ou de uma maneira progressista, desejando criar um mundo novo. Sem pretender que o discurso possa mudar o mundo, pode-se dizer que a linguagem pode ser instrumento de libertação ou de opressão, de mudança ou de conservação.

O papel central da linguagem explica-se por sua fundamental importância no contexto cultural: a linguagem é, ao mesmo tempo, o principal produto da cultura, e é o principal instrumento para sua transmissão. Por isso, o confronto ou comparação entre culturas – que é, em essência, o que está presente tanto na ideologia da deficiência cultural quanto na ideologia das diferenças culturais – é, básica e primordialmente, um confronto ou comparação entre os usos da língua numa ou noutra cultura.

Em conseqüência, nesse quadro de confrontos culturais, a linguagem é também o fator de maior relevância nas explicações do fracasso escolar das camadas populares. É o uso da língua na escola que evidencia mais claramente as diferenças entre grupos sociais e que gera discriminações e fracasso: o uso, pelos alunos provenientes das camadas populares, de variantes lingüísticas social e escolarmente estigmatizadas provoca preconceitos lingüísticos eleva as dificuldades de aprendizagem, já que a escola usa e quer ver usada a variante-padrão socialmente prestigiada. Assim surgiu a ideologia da deficiência nos Estados Unidos, durante a década de sessenta; de lá expandiu-se, nessa mesma década, e posteriormente, na década seguinte, para países da Europa e da América Latina, entre estes o Brasil.

Razões sociopolíticas explicam o surgimento da ideologia da deficiência cultural nos estados Unidos e sua aceitação nas sociedades capitalistas periféricas.

Por volta do início dos anos sessenta, a luta contra a desigualdade econômica acentuou-se nos Estados Unidos; nessa época cerca de dois quintos da população norte-americana – 77 milhões de pessoas – viviam em estado de pobreza crônica. Essa população socioeconomicamente desfavorecida era constituída predominantemente pelas minorias étnicas – negros, porto-riquenhos, chicanos – que sofriam um intenso processo de segregação e de marginalização social e econômica. Discriminadas no mercado de trabalho (daí a alta taxa de desemprego), e vendo suas crianças e jovens discriminadas pelo  sistema de ensino, as minorias étnicas começaram a reivindicar a “igualdade de oportunidades”, lema da democracia liberal de que o país tanto se orgulhava. Sem colocar em discussão a estrutura capitalista da sociedade, buscaram-se fora dela causas que explicassem a marginalização dos pobres, motor das insatisfações, e tentaram-se soluções que atacassem as causas apontadas.

Na área educacional buscou-se, inicialmente, analisar psicologicamente o problema das dificuldades de aprendizagem e do fracasso escolar das crianças pobres. Dessa análise nasceu a teoria da deficiência cultural. Esta teoria afirma que as crianças das camadas populares chegam à escola com uma linguagem deficiente, que as impede de obter sucesso nas atividades e conseqüentemente na aprendizagem: seu vocabulário é pobre,  não sabem o nome dos objetos comuns, usam frases incompletas, curtas, monossilábicas; sua sintaxe é confusa e inadequada à expressão do pensamento lógico, cometem erros de concordância, de regência, de pronúncia; comunicam-se muito mais através de recursos não verbais. Em síntese: são crianças deficitárias lingüisticamente.

Pretende-se que esse déficit lingüístico esteja estreitamente relacionado com a capacidade intelectual da criança; o pressuposto é que as habilidades lingüísticas correspondem habilidades cognitivas. Apesar de as relações entre linguagem e pensamento constituírem, ainda questão polêmica não resolvida, os partidários do déficit lingüístico buscam apoio em psicólogos que apontam o desenvolvimento do pensamento e do raciocínio como decorrente do desenvolvimento da linguagem. A partir desse pressuposto, concluem que as deficiências lingüísticas da criança desfavorecida são também cognitivas, porque a “pobreza” de sua linguagem, inadequada como veículo de pensamento lógico e formal, é obstáculo ao seu desenvolvimento cognitivo. Suas dificuldades de aprendizagem devem-se, assim, concomitantemente, a deficiências lingüísticas e a deficiências cognitivas que daquelas decorrem.

Na verdade, porém, o que houve foi a descaracterização dessas crianças  por meio da aplicação de testes, realização de entrevistas, observação do comportamento escolar. Como esses estudos partiam sempre de um modelo implícito ideal de comportamento em comparação com o qual a criança pobre era avaliada – o comportamento da classe dominante, social e economicamente privilegiada, os resultados apresentaram a criança como portadora de carências e deficiências, das quais as principais são perceptivas e motoras, resultado de um déficit lingüístico. Surgiu, assim, uma verdadeira teoria da deficiência cultural, isto é, responsabilizaram as variantes lingüísticas por gerar deficiências culturais. Obviamente essa teoria buscou por meios psicológicos, culpar a criança e seu contexto social dissimulando, assim, confortavelmente, as verdadeiras razões sócio-político-econômiocas da desigualdade.

A ideologia da deficiência lingüística veio apresentar uma confortável resposta a essa ameaça: ocultando a verdadeira causa da discriminação – a desigual distribuição da riqueza numa sociedade capitalista -, atribui a deficiências culturais e lingüísticas das crianças das camadas populares o seu fracasso na escola. As falhas são, assim, da criança, de sua família, de seu contexto cultural; a inadequação está na criança, não em um sistema escolar arcaico e preconceituoso.

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 22h24
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19/08/2008


Cassilândia chora a morte de mais um custodiense ilustre!

                                                                                                                                             *Rogério Tenório de Moura

 

São estranhos os caprichos que a vida mostra ter por algumas pessoas. Enquanto muitas parecem passar a vida em brancas nuvens, outras têm sua biografia repleta de conquistas, derrotas (afinal ambas são dois lados de uma mesma moeda), “causos” e muitas coincidências que parecem ter sido arquitetadas cuidadosamente.

Assim foi a vida de José Arlindo de Carvalho, mais conhecido simplesmente por Arlindo Carvalho, que curiosamente teve sua vida entrelaçada a de meu avô. Ambos naturais de Custódia, uma pacata e bela cidade do interior do Pernambuco, mas que outrora não fora tão acolhedora devido às intempéries do agreste nordestino. Embora fossem de gerações diferentes, tanto um quanto o outro se viram obrigados a deixar sua terra natal, pela qual sempre demonstraram nutrir imensa saudade e carinho, em busca de uma vida melhor e por um desses acasos do destino vieram parar em Cassilândia, ainda na época do Mato Grosso uno.

Na época em que Arlindo chegou a Cassilândia meu avô já estava bem estabelecido, era um próspero corretor de imóveis, produtor rural e uma das maiores lideranças políticas da região; foi simpatia à primeira vista, meu avô não se cansava em dizer nas reuniões de família que havia se visto novamente naquele audacioso jovem nordestino que havia deixado tudo para trás (que no caso eram só a família e os amigos) e se lançado ao mundo. Tendo tino como poucos para conhecer pessoas, meu avô não se enganou, fez o que pôde para ajudar aquele jovem aventureiro em seu início de vida e este não desapontou, transformou-se em um dos comerciantes mais influentes da região, dono de uma rede de lojas de calçados; dirigente de partidos políticos, líder de clubes de serviços, presidente da Associação Comercial...

Infelizmente a história nos mostra que não só de vitórias se faz a vida de um homem, mesmo dos grandes homens. Há alguns anos os negócios de Arlindo deixaram de prosperar como antigamente e suas atividades resumiram-se a uma loja, bem mais modesta que a primeira, administrada pela família; enquanto ele, como nordestino aguerrido, saía de cidade em cidade vendendo de porta em porta, porém sem perder a postura de predestinado a vencer que sempre teve.

Mesmo enfrentando problemas de saúde e dificuldades financeiras manteve-se anos a fio a frente do tradicional leilão beneficente em prol do Hospital do Câncer de Barretos, leilão este idealizado por ele, mostrando-se um exemplo de determinação e consciência cidadã. O exemplo de Cassilândia e de Arlindo Carvalho serviu para inúmeras cidades atendidas por aquele hospital. O engajamento dele inspirou várias pessoas que deram continuidade a sua obra, quando de seu afastamento de líder das atividades há três anos, devido ao agravamento de seu quadro clínico.

Será estranho saber que ele não está mais entre nós, como já era estranho não encontrá-lo pelas ruas da cidade nos últimos tempos para um gostoso “dedo de prosa”, pois por uma dessas contingências caprichosas da vida havia voltado para Aparecida do Taboado, primeira cidade mato-grossense a acolhê-lo. Mais estranho ainda é saber que o corpo de um homem cuja história se confunde com algumas das páginas mais belas da história de Cassilândia não repousará entre nós. A família decidiu sepultá-lo na “terra dos sessenta dias apaixonado”, só nos resta respeitarmos e nos resignarmos.

No ano passado, logo após o sepultamento de minha avó, disse-me que iria a Custódia, que queria matar saudades, relembrar dos tempos de moço, rever parentes e amigos, que depois de tantos anos de desterro resumiam-se à família de seu padrinho, o ex-prefeito Ernesto Queiroz. Era sua despedida, mesmo sem ter consciência disso.

Bem ao seu estilo grandiloqüente fez a última despedida a minha avó, também custodiense, suas palavras ecoam em minha mente como se fosse hoje: “Há noventa anos Maria José de Oliveira chorou por deixar a proteção do ventre materno e vir ao mundo, hoje são inúmeros os que choram por sua partida, teve uma vida frutífera, repleta de realizações e benfeitorias ao próximo”. Faço minhas as palavras dele!

 

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 18h07
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17/08/2008


Por que crer em Deus?

                                                                                                                                              *Rogério Tenório de Moura

 

Por mais que peseudointelectuais munidos da empáfia típica de quem se julga mais lúcido, mais capaz, mais preparado teimem em afirmar que Deus não existe pelo simples fato de que a ciência nunca conseguiu provar sua existência, o número de pessoas que buscam alento na religião não pára de crescer. O que eles tendenciosamente esquecem é que a mesma ciência também nunca chegou nem perto de provar que Ele não existe, prova disso são os inúmeros casos de efeitos paranormais que ocorrem todos os dias ao redor de todo o mundo e nunca foram elucidados por pesquisador algum.

É claro que em meio a este universo de misticismo há muita gente que tenta tirar proveito de pessoas crédulas, se sentir especial, único, respeitado; mas embusteiros existem em quaisquer atividades humanas, não seria no campo da busca pelo transcendental que seria diferente.

Os defensores do ateísmo alegam que a religião é uma farsa, que é uma forma de manipulação pacífica das massas, de inculcação ideológica, o que mais uma vez facciosamente eles esquecem é que nunca, em momento algum da história, nenhuma das atrocidades cometidas contra a humanidade tiveram respaldo bíblico algum para tanto. Aliás, a violência, mesmo que em autodefesa, foi condenada por Cristo, que deu o exemplo pagando com a própria carne. Todas as vezes que se utilizaram da fé para cometer atrocidades foi em nome de interesses pessoais, políticos e econômicos; a religião sempre foi apenas o pretexto, assim sendo a culpa não está na igreja, mas em quem preguiçosamente prefere amortecer seu senso crítico e entregar-se a qualquer canalha que venha pregando doutrinas vãs.

Não é à toa que na lista dos maiores assassinos do século XX, divulgada no livro Death by Government, ainda sem versão para o português, os comunistas “ganham de goleada” , confira:

 

Joseph Stalin - 42.672.000
Mao Tse-tung - 37.828.000
Adolf Hitler - 20.946.000
Chiang Kai-shek - 10.214.000
Vladimir Lenin - 4.017.000
Tojo Hideki - 3.990.000
Pol Pot - 2.397.000
Yahya Khan - 1.500.000
Josip Tito - 1.172.000

Como humanismo, embora sendo um conceito filosófico, acabou se firmando como uma espécie de religião para os ateus, prova disso é a Igreja Positivista, sediada no Rio de Janeiro; tratar-lhe-emos como se fosse uma unidade coesa, embora na prática seja extremamente difusa e prolixa. Trata-se de um termo muito amplo, às vezes confundido com ética, dignidade humana, direitos humanos, mas por uma questão de síntese, vamos considerar a expressão apenas como sendo a crença na capacidade humana para resolver TODOS os problemas da própria humanidade.

Diante da lista supracitada, pergunto-me: devo acreditar no ser humano? Se o homem que crê no etéreo é capaz de maquiar as escrituras em benefício próprio, de fazer vistas grossas a inevitável justiça divina, que se pode esperar daquele que crê apenas em si mesmo?

Assim não colocamos em discussão o humanismo, ao menos não o mérito da filosofia em si e sua crença na capacidade humana de promoção, de desenvolvimento, mas sim uma espécie de idolatria do homem pelo homem que vem sistematicamente tentando invalidar a fé em Deus sem acrescentar nada de verdadeiramente relevante à humanidade.  Querem destronar Deus, mas não apresentam uma alternativa. Esperam roubar a esperança de quem perdeu entes queridos ou está à beira da morte ou não vê sentido no padrão de vida corrompido deste mundo que a cada dia se afunda ainda mais na falta de ética e moral, mas não apresentam nada que o substitua a altura.

Os heróis do ateísmo mostraram-se invariavelmente ao longo da história megalomaníacos e despostas, mas ainda assim querem que continuemos acreditando que pode surgir do meio deles, ateus, alguma espécie de semideus capaz de dar norte a nossa sociedade capitalista corrompida.

O mais irônico neste comportamento autofágico de quem se proclama auto-suficiente, sem necessidade de crer em nada além do que seus pobres olhos podem ver, é que eles não conseguiriam viver se não tivessem um Deus a quem contestar. Seu assunto é invariavelmente a inexistência de Deus e o culto ao personalismo de quem nele não crê. Colocam-se em seus próprios altares e por falta de adoradores vangloriam a si mesmos. Comportamento idêntico ao do “anjo caído” que queria roubar o trono de Deus.

Não sou muito dado a ditados populares, mas este, sem sombra de dúvida, se encaixa feito uma luva ao assunto em questão: o pior cego é aquele que não quer ver. Diante de tantos “indícios” diários da existência de que, como dizia Shakespeare, “há mais mistérios entre os céus e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”, continuam insistindo em tentar fazer com que as pessoas desacreditem de seus próprios sentidos. Agem mais descrentemente que São Tomé, pois nem mesmo vendo crêem, preferem conjecturar sobre qualquer outra possível explicação, mesmo que esta seja ainda mais ilógica que simplesmente crer naquilo que seus olhos viram e seus ouvidos ouviram.

Há tantas manifestações do sobrenatural nas mais diversas religiões que somente quem não quer crer pode teimar e desmentir aquilo que eles se negam a ao menos conhecer. De outra forma, como explicar alguém beber cinco litros de pinga e fumar dez charutos e “desincorporar” como se nada tivesse acontecido? Como explicar as sessões de exorcismo nas igrejas pentecostais e neopenteconstais em que “espíritos malignos contam detalhes da vida de terceiros? Como explicar o fato de uma pessoa analfabeta começar a falar em línguas de países ermos em meio a cultos de adoração? Como explicar as visões, vozes e revelações que efetivamente se cumpriram? Isto os “sem deus” não explicam.

O cientista Richard Dawkins, doutor pela Universidade de Cambridge, ganhou mídia internacional com o lançamento do livro “Deus: Um Delírio”, que chegou recentemente ao Brasil e durante algumas semanas se manteve entre os mais lidos da lista da revista VEJA. A popularidade da obra se deve, entretanto, mais à curiosidade das pessoas em ver os argumentos dos ateus contra a existência de Deus que propriamente de encontrar ali a solução para dilemas existenciais.
O livro, porém, frustra os que esperavam novos argumentos sólidos contra a existência de Deus, o autor não sai do lugar comum, usando os mesmos clichês velhos e desgastados, não inova sequer no fato de usar uma linguagem ofensiva e ácida contra os que crêem em Deus. O resumo da obra é que, segundo Dawkins, a ciência já refutou Deus (grande coisa, como se todos já não soubessem!), que a religião é má por tolher as liberdades do homem (engraçado, pensei que ela regulava a conduta social do homem pelo bem da coletividade como um todo, apesar de garantir livre arbítrio) e que tem origem num "vírus da mente" (que a mesma ciência que ele tanto propala jamais conseguiu provar).

Para concluir, apresento ao amigo leitor uma série de excertos bíblicos sobre os quais vale à pena se debruçar. Leia-os, estude-os, reflita, discuta:


"Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis" (Romanos 1:21-23).

 

"Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto. Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jeremias 17:5-9)

 

"Diz o insensato em seu coração: não há Deus" (Salmo 14.1)

 

Um forte abraço, até semana que vem.

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 23h01
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10/08/2008


Nem tudo o que reluz é ouro!

                                                                                                                                    *Rogério Tenório de Moura

 

Historicamente, tanto a tecnologia quanto à educação estão fundamentadas na separação entre o saber e o fazer na divisão social do trabalho. Nas relações capitalistas os proprietários dos meios de produção, ao reservarem para si e para seus assessores a função da concepção da organização e do mando no processo produtivo, passam a controlar o saber. Por outro lado ao atribuírem as tarefas de execução (manuais) aos trabalhadores, definem concretamente separação entre a teoria e a prática, a concepção e a operação entre o saber e o fazer.

Desta forma a escola pública é influenciada pela ideologia Taylonista (F. Taylor 1856 -1915), sistema de administração científica baseado na produção em série, o saber e o fazer, antes integrados no trabalho artesanal, são separados; o saber é apropriado pela “gerência” (Gerência científica) e seguindo o modelo dessa teoria a escola é como uma fábrica e o aluno é o insumo básico a ser modelado pela ação do professor.

O produto dessa escola é um indivíduo capaz de seguir ordens com atenção, não-questionador, capaz de fazer algo sem se preocupar/interrogar por que é feito desse modo e não de outro, sempre confiante em que há alguém que já pensou por ele em  como fazer e capaz de se esforçar para fazer o melhor em seu posto ou linha de montagem.

Entretanto em face da rapidez nas mudanças no mercado de trabalho frente as inovações tecnológicas, a qualificação encontra limites estruturais no sistema educacional brasileiro, desde a impossibilidade material e humana de nos equiparmos para acompanhar esse ritmo até constrangimentos ao nível internacional limitando as perspectivas de produção científica e tecnológica nos grandes centros educativos. Assim não oferecemos aos nossos educandos nem uma formação humanista para o exercício contínuo da cidadania nem uma formação técnica sólida que o habilite de fato para o mercado de trabalho.

Diante desse quadro o MEC objetivou redefinir a Educação Básica, já que a maior parte da população ainda não tem acesso ao Ensino Superior, sobre uma grade de estudos gerais e comuns que se abrissem num leque de possibilidades tão amplo quanto excludente, por mais contraditório que isso possa parecer; pois ao inserir no currículo do Ensino Médio disciplinas como filosofia, sociologia e psicologia, mas não aumentar o tempo de permanência do aluno na escola, outras disciplinas presentes nos vestibulares estarão sendo preteridas, ao passo que nas escolas particulares, certamente o que ocorrerá será um incremento da carga horária, o que fatalmente tornará o abismo acadêmico entre tais estudantes ainda mais elástico.

O discurso da “educação para todos” facciosamente esqueceu-se de oferecer “educação de qualidade para todos”. Hoje o grande desafio não é ter acesso à Educação, mas a uma educação que esteja realmente a serviço do educando, e não dos donos do capital; visto que mediante o uso de novas tecnologias vislumbra-se a possibilidade de se contar com crescentes reservas de trabalho adequadas ao trabalho operativo das grandes empresas oligopólicas. Prova disso são os cursos superiores profissionalizantes e os  “virtuais” que se proliferam Brasil afora.

Sob o prisma de formar o aluno mão-de-obra, consumidor, a pessoa humana é ignorada, pois tal enfoque busca transformar o cidadão em um operador de tecnologias avançadas eficiente, ou seja, muito rápido no seu trabalho repetitivo e que esteja em constante aperfeiçoamento buscando dominar todos os avanços tecnológicos de que a empresa possa vir a se utilizar, porém ironicamente seu salário é cada vez mais achatado, ou quando passa a ser melhor remunerado por operar tecnologias de ponta em contrapartida são excluídos das frentes de trabalho dezenas de pessoas que passam a ser desnecessárias na produção desses bens de consumo. A partir de então tais máquinas passam a produzir, trazendo enorme economia às empresas, aumentando o lucro de quem já lucrava a maior parte das riquezas produzidas e expurgando do mercado de trabalho pessoas sem qualificação profissional, aprofundando ainda mais as diferenças sociais, criando uma classe de marginalizados “incompetentes” porque não se adequaram aos novos tempos, trazendo ao estudante a sensação de que quanto mais ele se preparar, mais seguro ele estará em seu emprego, ganhando um salário digno tendo o Status quo de quem é competente, um profissional indispensável para a empresa que necessita de novas tecnologias para se manter competitiva no mercado.

Ledo engano, cada vez mais o mercado cobra das instituições de ensino que formem alunos no menor espaço de tempo possível para que suas necessidades sejam atendidas, estas por sua vez oferecem essas novas “modalidades” de Ensino Superior, que excluem da formação acadêmica disciplinas que não sejam específicas e banem o debate, atividade intrínseca à formação acadêmica.

Nessa perspectiva, políticas tendem a inserir o país em prol do desenvolvimento do capitalismo monopolista, procurando em contrapartida, situá-lo como potência seguindo os padrões modernos dos países centrais. Numa sociedade em que o processo produtivo coloca uma demanda de especialistas com critérios e competência definidos nas grandes potências, o aparelho formador de um país fica diante de um desafio: equipar-se adequadamente para formar especialistas com a competência conforme padrões internacionais. Não a competência para a produção científica e tecnológica, pois esta já está sendo realizada no exterior. Importa a formação profissional que possibilite compreender, adaptar e operar as tecnologias avançadas que crescentemente se inserem na produção.

Medidas paliativas de escolarização tem sido adotadas, como os cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA), com o intuito de reintegrar a população carente ao processo de produção e acelerar o ritmo de formação de um exército de reserva, mas contraditoriamente elas têm atendido mais a reprodução da mediocridade e da inércia que reinserido estes cidadãos de volta ao mundo do trabalho e, principalmente, ao exercício pleno da cidadania.

Diante do exposto observamos que a Educação se mantém mais ou menos como bem universal. Praticamente todos têm acesso a ela de uma forma ou de outra. O problema está na eficácia desses estudos. O sistema cria limites estruturais que impedem que os indivíduos das classes subalternas galguem posições de mando dentro da sociedade e assim alcancem poder para mudar as relações sociais, mesmo tendo acesso à tão propalada universidade.

Não seja ingênuo, amigo leitor, a alfabetização só passou a ser tratada como um bem universal quando nossa sociedade passou por um intenso processo de industrialização, sobretudo a partir dos anos 50 do século passado. Hoje as classes mais baixas conseguiram galgar à Educação Superior simplesmente porque ela não é mais vista pelos detentores do poder como garantia de ascensão social. O filho do operário pode até ser colega de faculdade do filho do executivo, mas jamais terá as mesmas chances que este. O primeiro estará ansioso por um estágio remunerado o quanto antes, enquanto o segundo estará se preparando para entrar em um MBA antes mesmo de terminar a faculdade.

Assim o que este Estado intervencionista tem feito é preparar os indivíduos para que permaneçam exatamente onde estão;  produzindo bens de consumo, além de gerar riqueza e poder para os poucos detentores dos meios de produção.

Ressalte-se que enquanto educador não estou fazendo em hipótese alguma apologia à deseducação, mas alertando ao amigo leitor que a Educação tornou-se uma mercadoria, como qualquer outra coisa passível de ser compra neste atual sistema econômico, portanto seja criterioso, não adquira quinquilharias sem valor, não jogue seu tempo e seu dinheiro fora. Nem tudo o que reluz é ouro, desconfie do excesso de facilidades para se graduar. Todas as coisas que estão facilmente à mão são rapidamente sucateadas, e o que você fará depois de formado com um diploma sem valor além de pendurá-lo como enfeite na parede da sala?

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 23h12
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03/08/2008


IDEALISMO X DESCRENÇA

                                                                                                                            *Rogério Tenório de Moura

 

Conta uma antiga lenda árabe que uma mulher falaciosa foi presa sob a acusação de sair pelas ruas da cidade difamando a moral de todos indiscriminadamente. O sultão mandou chamá-la e condenou-a a ser decapitada diante de seus acusadores. A mulher implorou por sua vida. O soberano resignou-se, meditou alguns instantes e disse: "Tudo bem, pegue estes papéis, rasgue-os e espalhe-os por toda a cidade". A mulher aceitou imediatamente essa estranha punição, saiu felicíssima a cumprir sua sentença. Ao voltar o sultão complementou seu verídico: "Agora volte, recolha todos os papéis e cole-os novamente". A mulher intrigada disse: "Mas, meu senhor, isto é impossível!" Veementemente respondeu o regente: "Exatamente, depois que a moral de uma pessoa é rasgada, como você fez com tantas, é impossível reconstituí-las, justamente por isso sua sentença só pode ser a MORTE!".

A moral da didática lenda acima deve ser encarada como uma premissa indispensável a todo aquele que quiser se dedicar a vida pública. Felizmente, nos últimos anos, o eleitorado tem demonstrado uma crescente aversão por todo político que se atém meramente a criticar. Tudo na vida passa por momentos de sístole e diástole e parece que o momento dos línguas pretas de plantão passou. Não que a crítica não faça parte da vida pública, ao contrário, a constante revisão e discussão dos paradigmas vigentes é o que dá norte e sentido à política, sobretudo ao exercício dos cargos legislativos; entretanto os postulantes a um cargo público devem entender que transformar-se em uma metralhadora giratória em nada contribui para a construção de coisa alguma.

Tal tipo de político pode evitar que uma série de despautérios, principalmente oriundos do executivo, ganhem vida, transformem-se em elefantes brancos e atravanquem a vida de todos nós, mas não chega a contribuir efetivamente para o empreendimento de nada, pois perde tempo demais em atacar e se esquece de propor, colaborar, estudar, pesquisar e apresentar propostas consistentes e relevantes.

Da mesma forma o eleitor “São Tomé”, que acredita que todos são culpados até que se prove o contrário, quando a máxima do Direito é exatamente o oposto, é igualmente inútil ao fortalecimento da democracia. Atualmente há movimentos organizados que apregoam que o voto nulo em massa é a única saída para o país. Só não entendo que saída é essa. Talvez para a volta à ditadura, seria o álibi perfeito para algum megalomaníaco tomar de assalto o poder, afinal se o povo não se importa em quem vai governar, qualquer um serve.

A esse tipo de eleitor dou o seguinte conselho, nada ortodoxo, continue a se lamuriar e a comodamente desacreditar de tudo e de todos; faça como uma tia velha que fica o tempo todo sentada em uma confortável poltrona reclamando e dizendo como o mundo era melhor antigamente e espere a morte em um hospital público imundo, assista passivamente seus filhos e netos concluírem a Educação Básica e ainda assim serem analfabetos funcionais, aventure-se nas rodovias públicas, viva encarcerado enquanto os criminosos vivem soltos ...

Não estou dizendo que devemos acreditar em tudo aquilo que nos prometem, pois infelizmente estamos vivendo os tempos profetizados por Rui Barbosa no início do século XX, quando ele afirmou que chegaria o tempo em que  de tanto ver prosperar a desonestidade os honestos teriam vergonha de sê-lo; mas temos de pacientemente observar o trigo e o joio crescerem juntos para no devido momento lançarmos este fora. Não há mal que dure para sempre nem mentira que se sustente permanentemente

Se a democracia como aí está tem se mostrado um jogo de cartas marcadas em que os desonestos e ricos sempre vencem, temos de lutar para mudá-la, cabe a nós fazermos isto, não aos políticos, não se constrói uma casa de cima para baixo. Este é o principal problema do Brasil, tudo começa sempre de cima para baixo, na prática somos uma tribo patriarcal, não uma república democrática. A declaração da independência, a proclamação da própria república, o fim da república da espada, o fim da república do café com leite, enfim os principais fatos políticos da história brasileira deram-se da elite em direção às massas, quando deveria ser o contrário. Um governo, para ser legitimo, deve emanar do povo para o povo. Não estou fazendo apologia ao socialismo, que demonstrou em todos os países em que se instalou ser um sistema frágil e hipócrita, mas sim a que o povo se veja como realmente é: dono da máquina pública.

Enquanto cidadão, você, amigo leitor, faz parte dessa "armação", dessa imensa patuscada que se tornou o processo eleitoral brasileiro, mesmo que seja pelo simples fato de não fazer nada, de se omitir. Então engaje-se, apóie alguém próximo de você em quem você confia, já que depois de eleitos a maioria se torna inacessível; guarde todas as propostas de trabalho e se o candidato for eleito, exija, se necessário até na justiça que ele cumpra o que prometeu; peça aos candidatos que lhe pedirem seu voto que registrem em cartório sua plataforma de trabalho, é um direito seu, se ele realmente quiser cumprir seus compromissos não irá se ofender. E, se ainda assim, você não confiar em ninguém, candidate-se você mesmo. Tachar a tudo e a todos indiscriminadamente e ficar estático é covardia.

Como disse certa vez Bertold Brecht, um famoso político e escritor inglês do século XIX, o maior castigo para aqueles que não se interessam pela política é que serão governados pelos que se interessam. Acredite, se não nos outros, em si mesmo. Um homem sem esperança é um homem morto. Pode ser que eu seja ingênuo, por ser idealista, mas não conheço ninguém que tenha mudado o mundo, ao menos o seu mundinho, que não tenha sido, que o digam Jesus Cristo (crucificado), Sócrates (foi forçado a se matar), Gandhi, JFK, Martin Luther King (assassinados). Prefiro ser considerado um humilde e ingênuo admirador de homens que ousaram pagar, e pagar caro, pelo que sonhavam que ser um zumbi, um morto-vivo sem esperanças!

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

 

Escrito por tenorio.moura às 21h03
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30/07/2008


Quem será a próxima vítima?

*Rogério Tenório de Moura

 

Embora o título lembre o nome de uma antiga novela da “toda poderosa”, como diz o velho dito popular: as aparências enganam. O questionamento melhor especificado seria: quem será o próximo postulante a um cargo público a ser vitimado por este sistema eleitoral incoerente? Sim, pois certamente haverá se não um, mais de um político que será um dos nove mais votados para se tornar um parlamentar municipal, mas que verá a cadeira a que teria direito ocupada por outro menos votado.

Em toda eleição esse atentado à democracia se repete, em nome da garantia de uma pseudo-representação político partidária a vontade do povo vem sendo afrontada há décadas por um sistema eleitoral tão falho quanto ingênuo. A tese é a de que os partidos são os legítimos representantes das diversas correntes políticas que coexistem em nossa sociedade, porém, na prática sabemos que isto não passa de esparrela; a maioria significativa das legendas existentes restringem-se a meros caça-níqueis, colocam-se à disposição de quem oferece a seus dirigentes as maiores vantagens, os melhores cargos no governo, a maior estrutura de campanha, quando não se negocia a coligação em espécie.

Ninguém em sã consciência crê que um sistema pluripartidarista como o nosso pode ser benéfico à sociedade, por uma questão extremamente óbvia: não há tantas correntes políticas tão discrepantes entre si que não possam se restringir a meia dúzia de legendas ou menos. Se nossos políticos não conseguem se entender e celebrar um acórdão nem mesmo ao organizar nosso sistema partidário, que dirá depois de eleitos, de “donos” do mandato?

A verdade é única e inequívoca, depois de décadas de repressão perdemos a nossa noção de limites; se a existência de apenas dois partidos, o do governo e o da oposição, que vivia sob intervenção dos militares, não era bom, pois não representava toda a densidade de ideologias que bradavam por ter vez e voz, o pluripartidarista consegue ser ainda pior, pois é autofágico, corrói  por dentro a legitimidade do processo democrático, prostitui os líderes e deixa os liderados a deriva. Não se justifica a existência de mais de trinta partidos em um único país. Eu sou do tempo em que só se falava abertamente em direita e esquerda. Hoje, além destes, temos os partidos de centro, de extrema esquerda, de extrema direita, comunistas, socialistas, social democratas, liberais, neoliberais, anarquistas e, pasmem, até neofascistas e neonazistas! Em um país em que a maioria dos candidatos não concluiu sequer a Educação Básica, segundo dados do próprio Tribunal Superior Eleitoral, são filosofias sociais demais para que eles mesmos entendam o que estão apregoando.

Não creio que um sistema bipartidário como o que já vivemos seja positivo, por ser demais excludente, mas essa total Torre de Babel que se tornou nosso sistema eleitoral torna tudo e todos muito mais confusos, primeiramente porque as eleições proporcionais injustas como aí estão só existem porque tratam partido e candidato como se fossem uma única coisa e não são. Mesmo tendo havido o enrijecimento da legislação no sentido de fortalecer a fidelidade partidária, o mandato continua sendo do político e não da legenda, assim sendo ao se garantir a um partido o direito de ter um representante ao atingir um coeficiente “X”, isto não significa que o mandatário eleito prestará contas de seu mandato à direção do partido e nem que nele permanecerá ao longo de todo o mandato. Segundo porque ao privilegiar as legendas, e não os candidatos, a vontade soberana do povo não é respeitada.

Quem não sabe ao menos um caso de alguém que teve votos o suficiente para ser eleito, mas não foi? Um exemplo clássico foi o do ex-deputado Luizinho, em 1994, dada a proporção do apoio popular e do empenho de todas as lideranças políticas locais em elegê-lo. Situação e oposição se uniram em torno do nome dele para que Cassilândia tivesse um representante na Assembléia Legislativa. O resultado foi que, apesar de ter sido o vigésimo primeiro mais votado, em um universo de vinte e quatro vagas para a referida casa legislativa, perdeu em detrimento de outros quatro candidatos que tiveram quase a metade de seus votos. Ressalte-se que só citei o nome dele aqui porque nestas eleições ele não está disputando cargo eletivo algum.

Nas eleições municipais os exemplos são inúmeros, mas por estarmos em período eleitoral, prefiro abster-me de citar nomes, pois algumas das vítimas de outrora são candidatas hoje, o que caracterizaria uma certa espécie de simpatia de minha parte e o que quero neste espaço não é defender este ou aquele nome, mas um ideal: o de que uma democracia só é consolidada de fato quando a expressão da vontade popular resulta na seleção daqueles que irão governar.

Não podemos continuar ignorando o fato de que nosso sistema representativo hodierno é falho e débil, pois abre espaço para oportunistas de plantão “apossarem-se” de legendas menos representativas e delas tirarem proveito, além de matar a lógica do sistema democrático de direito, pois não garante a efetiva confirmação da vontade popular e banaliza a participação dos partidos no processo decisório eleitoral, uma vez que a farta oferta de vagas a quem quiser se candidatar proporciona a realização de uma verdadeira corrida maluca.

Qualquer um, hoje em dia, pode sair propalando quatro anos antes que será candidato porque certamente será, as convenções nada mais tem feito que ratificar a candidatura dos postulantes a um cargo público. Se restringíssemos o número de partidos para, como afirmei anteriormente, meia dúzia, no máximo, aqueles que quisessem um dia entrar para a vida pública ver-se-iam obrigados a se preparar para tal, eles saberiam que o processo eleitoral iniciar-se-ia efetivamente nas convenções, pois se seu currículo não fosse considerado satisfatório nem sequer seriam candidatos; no entanto o que se vê corriqueiramente, não só em nossa cidade, mas Brasil afora, são candidatos semi-analfabetos concorrendo a uma eleição, quando não a uma reeleição, como foi noticiado nesta semana o caso de um vereador no interior do Pernambuco que teve o registro de sua candidatura indeferido por não conseguir provar que era alfabetizado, detalhe: o parlamentar já estava em seu quinto mandato consecutivo! Então ficam as seguintes perguntas no ar: o que o diretório do partido estava fazendo ao longo dos últimos vinte anos que não percebeu isto? Que relevância para a sociedade podem ter tido esses cinco mandatos deste cidadão?

Quem me dera ter a certeza de que este foi um fato isolado! Parafraseando os americanos: Deus salve o Brasil!

 

*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

Escrito por tenorio.moura às 22h27
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29/07/2008


PLC 122 X Liberdade religiosa

                                                                                                                               *Rogério Tenório de Moura

 

Recentemente tornou-se moda nos meios de comunicação o termo homofobia, mas não como tantos outros vocábulos que passam por períodos de sístole e distotole. O uso indiscriminado de tal termo tem se revertido em vexação contra todos aqueles que professam um credo religioso que condena o homossexualismo. Assim sendo, ao menos trinta por cento da população brasileira, número aproximado de evangélicos no país, hodiernamente, tem recebido a pecha de intolerante, arbitrária, preconceituosa... e tantos outros termos notoriamente pejorativos.

Para se garantir os direitos de uma minoria homossexual, uma significativa parcela da população brasileira tem tido seus direitos de liberdade de expressão e de culto religioso ameaçados. Esclareço, não se trata apenas de uma parcela da imprensa ter feito uma escolha explicitamente facciosa e falaciosa, mas da iminente apreciação do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 00122/2006 pelo Senado Federal, que busca justamente colocar uma mordaça gay na boca de todos os líderes religiosos que defendem nada mais nada menos do que a doutrina bíblica.

Antes de prosseguirmos, gostaríamos de esclarecer que somos defensores ferrenhos da liberdade de expressão, princípio básico para o exercício pleno da cidadania e para a existência de uma democracia de fato, da liberdade religiosa e da livre orientação sexual; aliás todos direitos resguardados por nossa Constituição “cidadã”.

Se o controverso projeto for convertido em lei, conforme compromisso do Presidente, que é favorável ao mesmo, ocorrerá uma perseguição religiosa sem precedentes em toda a história de nosso país. A proposta prevê punição a qualquer pessoa que se manifestar, mesmo que pacificamente, contra o homossexualismo.

Ora, o que os defensores de tal absurdo não percebem é que o homossexualismo não deve acrescentar direitos a ninguém, uma vez que ao garantir ao indivíduo que tem essa orientação o privilégio de estar acima de qualquer juízo de valor, coloca-se o mesmo em posição privilegiada, acima do próprio direito, uma vez que tolhe o direito de outrem de expressar suas convicções. Se por um lado cada um tem o direito a livre orientação sexual, do mesmo modo, todos tem direito a liberdade de suas convicções. Essas garantias constitucionais não são excludentes entre si, mas podem e devem vigorar em perfeita harmonia.

O que está em questão não é o mérito ou demérito do homossexualismo em si e sim a legalização de um crime contra a liberdade de expressão religiosa, o que fere diametralmente a Constituição Federal. Criar normas que venham a reprimir esta liberdade é retroceder no tempo, é o mesmo que trazer à tona as trevas da barbárie da Idade Média.

Ressalte-se que defendemos veementemente a liberdade individual de cada um de concordar ou não com a homossexualidade. Ficando à escolha deste os motivos de sua convicção, resguardando, porém ao homossexual praticante  o direito de não ser discriminado, uma vez que a ninguém que não a seu parceiro tem de prestar contas de sua vida sexual. Entretanto não se deve obrigar ninguém, via “canetaço” a conscientizar-se da concepção ou diretriz de vida que deve seguir.